Publicado por: otaodabiologia | 29/12/2012

Previsão – Fim da FUVEST

Enquanto milhões de pessoas faziam o exame durante o segundo dia de prova do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2012 fui acometido por uma ideia que, a partir de uma construção um pouco mais detalhada, me conduziu a uma previsão. Como toda previsão, é bom ressaltar que isso não é um fato, e nem necessariamente virá a ser, mas vale a pena deixar seu registro de alguma maneira.

A grande questão que irei aqui discutir é: por que as grandes universidades paulistas (USP, UNICAMP e UNESP) não utilizam o ENEM como parte significativa (ou total) do processo de seleção do corpo discente? O problema não é apenas a logística do sistema, mas acima de tudo, é uma questão de política. Antes de começar a entrar no mérito político da minha previsão, gostaria de deixar muito claro que sou apartidário e apolítico e o que descreverei nas próximas linhas é a sistematização de um raciocínio lógico, sem intenções políticas e/ou ideológicas ultrapassadas.

Levando em consideração o presente antagonismo político entre o governo federal (PT) e estadual (nesse caso, o do Estado de São Paulo – PSDB), devemos observar que a utilização do ENEM como sistema de seleção para as universidades paulistas consolidaria a política educacional que vem sendo aplicada pelo PT nos últimos anos, quando o ENEM passou a ser a porta de entrada para a maioria da Universidades e Institutos Tecnológicos federais. Contudo, para entender melhor minha previsão, devemos fazer uma breve recordação de fatos importantes que aconteceram nos últimos anos no âmbito educacional e político brasileiro.

O ENEM ganhou novas características e uma nova dinâmica durante o final da gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), quando o então ministro da Educação, Fernando Haddad, implementou o novo formato do exame e o SISU, um sistema de seleção unificada que utiliza a nota do ENEM para a classificação dos candidatos às vagas nos mais diferentes cursos de diversas universidades públicas brasileiras. Concomitantemente, o então ministro da Ciência e Tecnologia, Aloísio Mercadante (PT), vinha fazendo grandes avanços na pasta.

Nas eleições para prefeito de 2012, um fato surpreendeu muitas pessoas: Fernando Haddad desbancou o ex-candidato à Presidência da República, José Serra (PSDB). Pessoalmente, não acredito que foram fatos isolados que levaram à eleição de Fernando Haddad. Na verdade, acredito que uma junção de diversos fatores contribuíram para sua aclamação pelo povo paulista, entre eles o passado político exaurido de seu concorrente, o trabalho de relativa qualidade no Ministério da Educação e, não obstante, ao trabalho social que vem sendo realizado pelo governo petista desde a gestão do ex-presidente Lula e agora pela presidente Dilma Rousseff.

Contudo, qual é a relação dos fatos que podem ter levado Fernando Haddad à Prefeitura da cidade de São Paulo com um possível fim do vestibular da FUVEST, por exemplo? O fato é que dentro de mais 2 anos (em 2014) teremos eleições para governador e os mesmos fatores poderão surgir novamente. O atual governador do Estado de São Paulo,  Geraldo Alckmin, completará 10 anos no exercício do poder, podendo tentar se reeleger por mais 4 anos, o que lhe conferiria um total de 14 anos. Soma-se a isso a grave crise na segurança pública enfrentada pela atual gestão e forma-se, então, um quadro complexo para sua reeleição em 2014.

O atual Ministro da Educação, Aloísio Mercadante, que assumiu a pasta no lugar de Fernando Haddad, foi o segundo colocado na eleição de 2011 para o governo do Estado de São Paulo. Contudo, vem dando continuidade ao trabalho de Haddad e, nesse ano de 2012, conseguiu que 91% das Universidades Federais utilizem o ENEM como processo seletivo (ou parte significativa dele), o que vem elevando cada vez mais seu nome no meio popular. Obviamente, Mercadante deve ser o principal nome de oposição para a disputa pelo governo paulista em 2014, o que agrava ainda mais as possibilidades de reeleição de Alckmin. Este é o nosso ponto de partida.

Imaginemos então um cenário em que Mercadante realmente apresente uma intenção de voto que ameace a permanência de Alckmin no poder (ou José Serra, num desarranjo político por parte do PSDB – visto que é provável que o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, seja o candidato à presidência da República). Nesse momento, o que podemos esperar é o maior lobby já visto sendo realizado por cursos pré-vestibulares contra o candidato petista. No momento em que possíveis intenções de mudanças no sistema de seleção atual para as universidades paulistas surgirem no discurso político, os cursos pré-vestibulares se verão completamente ameaçados. Pense que, se de fato o ENEM tomasse o lugar o tradicional vestibular das universidades paulistas, todo o material produzido durante as últimas décadas estará completamente defasado (como já estão hoje – basta analisar as últimas provas da FUVEST, por exemplo) e os professores deverão se alinhar com uma nova forma de pensar e de ensinar.

Talvez você deva estar pensando qual é o peso político que os cursos pré-vestibulares têm. Os grandes cursos (Anglo, COC, Etapa, Objetivo, Poliedro, etc…) possuem um valor de mercado que, somado, chega na casa dos bilhões de reais. Para se ter uma ideia, o sistema Anglo foi comprado pela editora Abril em 2010 por aproximadamente R$ 600 milhões. O SEB (Sistema Educacional Brasileiro) tinha sido avaliado por aproximadamente R$ 715 milhões, mas foi comprado pela editora Pearson por R$ 888 milhões. Aliás, a editora Pearson, de origem inglesa, avaliou o mercado educacional brasileiro em mais de US$ 2 bilhões. Talvez agora, vendo essas cifras, você deva estar entendendo o motivo pelo qual nenhum sistema de ensino irá gostar de ter que reformular todo o seu material didático e treinar todos os seus professores.

Do ponto de vista pedagógico, o que aconteceria? Tudo o que você acredita que “aprendeu” na escola é, na verdade, um conjunto de conhecimentos que fazem parte dos editais dos vestibulares. Para quem não sabe como funciona, o Ministério da Educação (MEC) possui os Parâmetros Curriculares Nacionais, também conhecidos como PCN’s. Nos PCN’s, o MEC sugere, preste atenção, ele apenas sugere, conteúdos e algumas sequências para os mesmos. Assim, nosso Ensino Médio está pautado quase que exclusivamente para a preparação para o vestibular, ou seja, salvo uma ou outra escola, esqueça aquela história de “ensinar para a vida”. O ENEM, embora seja considerado um exame fácil por muitos estudantes e professores, tem evoluído e consegue abranger boa parte das expectativas das quais acredito que nossos jovens devam saber ao concluir o ensino médio. Preparar um “cursinho” para o ENEM não faz sentido nenhum, basta olhar as provas anteriores e você perceberá que o aluno não tem que decorar equações físicas, químicas e matemáticas, não tem que saber qual como se faz a divisão de um polinômio pelo método de Briot-Ruffini e mais um monte de “tranqueiras” que incham o currículo do Ensino Médio brasileiro. Os alunos devem saber analisar gráficos, tabelas, textos, correlacionar conhecimentos, entre outras coisas que o atual sistema de ensino não possibilita.

Avançando nosso cenário inicial no tempo e, considerando a eleição de Mercadante para governador, qual poderia ser a sequência de eventos seguintes? Alterar o método pelo qual as universidades realizam seu processo seletivo não está sob o alcance direto do governador, uma vez que quem tem autonomia para promover esse tipo de mudança é o reitor da universidade. Contudo, quem escolhe o reitor de uma universidade estadual como a USP, UNICAMP e UNESP é o governador do estado. A escolha de um reitor acontece em duas etapas: na primeira etapa uma lista tríplice é escolhida em uma eleição que envolve professores, alunos e funcionários das universidades; a seguir, o nome dos três candidatos mais votados é levada ao governador que, independente da classificação de cada um, escolhe um nome para ser o futuro reitor da universidade. Aliás, essa forma de escolha é um dos principais motivos para as greves periódicas dos alunos da USP, UNICAMP e UNESP, os quais pedem uma eleição mais democrática, com maior autonomia universitária. Nesse sentido, sendo Mercadante o governador, ele provavelmente escolherá o reitor que apoiar e se comprometer a utilizar o ENEM como forma de seleção.

Quando expus inicialmente essa previsão aos meus alunos, alguns deles acreditavam que isso talvez não fosse possível devido ao fato da FUVEST, por exemplo, deixar de arrecadar dinheiro com a inscrição (R$ 130,00), sendo que no vestibular de 2013 houveram quase 160 mil inscritos e o total arrecadado chegou próximo de R$ 21 milhões. Mesmo excluindo-se os candidatos isentos da taxa (supondo 50% do total de inscritos), estaríamos falando de um recurso financeiro de aproximadamente R$ 10 milhões/ano. Todavia, o gasto na preparação, aplicação e fiscalização das provas também são altos. Se utilizar o ENEM como primeira fase do processo de seleção, as universidades poderiam continuar a cobrar uma taxa de inscrição da mesma forma como fazem hoje, mas reduziriam significativamente os seus gastos, o que poderia gerar um lucro ainda maior.

QUAL SERIA O GANHO PARA A EDUCAÇÃO?

O que mais me chama a atenção nessa possibilidade é que a utilização do ENEM como processo seletivo para universidades como a USP iria alterar por completo a forma de educar no Brasil. Nosso currículo inchado seria revisto, coisas inúteis para o conhecimento geral seriam excluídas do currículo normal. Por exemplo, pensando na Física, qual é a importância para um candidato do curso de Direito saber calcular o campo elétrico resultante num ponto do espaço onde existem três cargas elétricas dispostas de forma específica? Ou para um candidato de Engenharia Civil, que deve saber o tipo de circulação sanguínea nos diferentes filos? Durante os últimos anos, enchemos nossas lousas com equações mágicas em que o aluno era capaz apenas de substituir os números nos locais corretos e achar um valor final (e não ouse esquecer a unidade!). Como alguns alunos meus já comentaram de uma antiga “professora” que dizia: “não se preocupem em entender, são receitas de bolo”. Nem nós mesmos, professores, sabemos a utilização real da maior parte dos conteúdos que ensinamos.

SÓ O ENEM BASTARIA PARA SELECIONAR OS CANDIDATOS A TODOS OS CURSOS?

Seria muito bom que após uma pré-seleção por meio do ENEM cada curso pudesse optar por realizar ou não uma segunda fase. E, em optando pela realização de mais uma etapa no processo de seleção, seria muito bom que houvesse alta especificidade nas avaliações. Isso daria mais fôlego aos próprios cursinhos, que teriam que diversificar seu conteúdo. Por exemplo, para o curso de Medicina, uma segunda fase poderia constar de dois ou mais dias de avaliação em que o candidato deveria demonstrar competências específicas da área. Assim, a avaliação poderia contemplar uma proposta em que o candidato devesse desenvolver um plano de pesquisa científica para uma determinada doença, o que forçaria as escolas a passar a ensinar ciência da forma correta. Ainda, a prova de química deveria objetivar temas como química orgânica e não temas não relacionados à Medicina, como pro exemplo o funcionamento da Pilha de Daniell.

Uma avaliação específica de 2ª fase modelaria de forma mais justa o formato do Ensino Médio. Há vários anos venho imaginando um formato no qual os alunos poderiam desenvolver suas aptidões de forma mais efetiva e cheguei a conclusão, por inúmeras vezes, que durante os três anos de Ensino Médio os alunos deveriam ter contato com o essencial de cada disciplina (por exemplo, nada de cálculos matemáticos avançados em física ou decorar os eventos exatos de cada fase da divisão celular). A partir do 2º ano o aluno optaria por uma área do conhecimento (Exatas, Humanas ou Biológicas) onde as disciplinas específicas seriam trabalhadas em maiores detalhes e formalidades. Dessa maneira, as aptidões de cada indivíduo seriam respeitadas, o que proporcionaria, ainda, uma maior possibilidade de avanço nos temas que devem ser necessários, ou seja, substituiríamos o superficialismo atual por um mergulho um pouco mais profundo nos temas essenciais.

RESUMO

Segue abaixo um resumo da previsão que fiz nesse texto:

  1. 2º turno da eleição para governo do Estado de São Paulo em 2014 – Gerlado Alckmin (PSDB) x Aloísio Mercadante (PT)
  2. Lobby de cursos pré-vestibulares contra Mercadante
  3. Em caso de eleição de Mercadante – escolha de um reitor que apoie o uso do ENEM como processo de seleção da Universidade de São Paulo
  4. UNICAMP e UNESP seguem os passos da USP e passam a utilizar o ENEM
  5. Modificação na estrutura do Ensino Médio em nível nacional (após 2016)
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Responses

  1. Muito bom seu texto.
    Bom, acredito que o FUVEST seja uma grande chave já para que os candidatos possam entrar em grandes universidades paulistas, FUVEST além de ter um preço bem alto, alguns alunos não possuem a capacidade de raciocínio para efetua-la porém, acredito que entrar em uma boa universidade pública vai do merecimento e esforço do aluno durante todos os anos de escola. Caso o ENEM pudesse fazer parte para que alunos fossem selecionados para universidades publicas paulistanas, acho que com certeza, seria um bom passo pelo menos para a 1ª fase. Sendo assim nessa prova o aluno saberia se ele teria ou não chances de entrar no curso desejado. Caso o aluno conseguisse, ele poderia ter a chance de fazer o FUVEST baseado no curso na qual ele deseja realizar em tal faculdade publica, porém com um nível de dificuldade bem maior que o ENEM. Pois assim o ENEM avaliaria todas as matérias escolares incluindo, matemática, biologia e quimica. Com isso já é possível ver se o aluno tem ou não capacidade para entrar e fazer o curso desejado na universidade publica. Ao cobrar da taxa, isso pode ser realmente necessário porém não em um preço ” absurdamente ” caro, pois nem todos os alunos possuem tal renda para esse tipo de prova. Bom… o que quis dizer é que sou a favor do ENEM para faculdade publicas de São Paulo como a USP. Porém, somente para avaliar o aluno para que em seguida pudesse fazer o FUVEST e ai sim, possuir tal vaga na universidade.


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