Publicado por: otaodabiologia | 29/12/2010

Por onde começar?

Já é quase uma hora da manhã do dia 29 de Dezembro de 2010. Me peguei rolando na cama, sem sono e, para variar, pensando em como mudar as coisas para que elas passassem a fazer um pouco mais de sentido. Logo, precisava escrever.

Mais especificamente, os pensamentos que não me saíam da cabeça estavam relacionados a educação. O Brasil carece urgentemente de professores de Física que sejam realmente físicos e não matemáticos, engenheiros, químicos ou biólogos. Me enquadro na última opção, mas apesar de ser biólogo de formação inicial, vejo-me muito mais como um cientista mais generalista, que preza o conhecimento científico de forma mais amplo, independente se o ramo de estudo seja Físico, Biológico ou Químico.

Dentre desse contexto, pus-me a pensar sobre o ensino de Física que oferecemos ao Ensino Médio. Que me perdoem os Físicos, mas assim como nas disciplinas de Biologia e Química existem diversos conteúdos que são completamente dispensáveis e outros de suma importância que não são abordados. Eis um exemplo da Biologia: divisão celular. Por que tentar ensinar os alunos os eventos que ocorrem cada etapa da mitose, fazendo-os literalmente decorar se eles ao menos não sabem, de forma plena e concisa, o motivo pelo qual uma célula precisa se dividir. Nem os próprios professores, em sua ampla maioria, sabe quais são as relações matemáticas que levam uma célula a se dividir. E, sim, saber o por que disso é muito mais importante do que decorar nomes de fases.

O mérito aqui não são os conteúdos de Biologia, Química ou Física que deveriam ser retirados, mas sim os conteúdos da disciplina de Física que deveriam ser inseridos. A mesma questão é levantada nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) da disciplina de Física, em que são claramente confrontadas as questões “O que ensinar em Física” e “Para que ensinar Física”.

A Física é a Ciência-mãe de todas as outras. Dela derivam a Química e a Biologia e, dentro de cada uma dessas, sua especializações. Assim, é obviamente incoerente tratar essas disciplinas de forma isolada. Contudo, é o que vemos em nossos professores. Questione um professor de biologia (que não lecione Física) sobre algum aspecto físico de sua disciplina ou questione um professore de Física sobre algo de Biologia. Muito provavelmente eles não poderão te ajudar, visto sua formação fechada e, geralmente, impassível de complementação.

A transição entre o Ensino Fundamental e Médio é muitas vezes penosa para os alunos. Primeiramente por que estamos tratando com adolescentes cujas prioridades são completamente diferentes das dos adultos e, em sua amplíssima maioria, os estudos, o conhecimento, não fazem parte dos primeiros itens de suas listas. Em segundo lugar, mas não menos importante, pelo fato de surgirem disciplinas aparentemente “do nada”, visto que muitos não se dão conta – e também não são informados pela escola – que essas “novas” disciplinas são uma extensão, em nosso caso, da disciplina de Ciências que eles cursaram durante todo o Ensino Fundamental. E é exatamente nesse ponto que parece haver uma profunda desconexão entre a Física e as disciplinas de Biologia e Química. Ao passo que em Biologia iniciamos o estudo da vida com as bases químicas que compõem todas as formas de vida e na Química estudamos a natureza da matéria (átomos, moléculas, ligação iônica, covalente, etc), na Física ocorre literalmente o contrário, damos início aos estudos de Cinemática. Obviamente muitos professores preferem começar a história de maneira um pouco diferente: alguns professores de Biologia começam por Ecologia, alguns de Física começam por Trabalho e Energia. De qualquer maneira, não existe uma conexão entre as três disciplinas.

Visto essa falta de articulação da disciplina de Física com as demais disciplinas científicas, fica patente a necessidade de uma alteração nos primeiros conteúdos a serem abordados no início do primeiro ano do Ensino Médio. Se tanto a Biologia como a Química tratam de questões do tipo “do que somos feitos?”, “de onde viemos?”, “para onde vamos?”, seria muito mais lógico que a Física tivesse início tratando das mesmas questões:

  • como o Universo surgiu?
  • quando o Universo surgiu?
  • por que o Universo surgiu?
  • como o Universo está evoluindo?
  • quais as teorias que sustentam o Universo estável como o conhecemos?

Trazer o estudo da Cosmologia não somente para o Ensino Médio, mas para o começo dele, não é algo difícil de se fazer, pelo contrário. Trabalhar temas que aguçam a curiosidade dos alunos estimularia muito mais seu interesse pela Física do que a estrita aplicação de equações matemáticas para cálculo de quantidades Físicas muitas vezes abstratas ao nosso cotidiano. Além disso, o ensino de Cosmologia (para o Ensino Médio) não envolve equações complicadas que exigiriam dos alunos uma maturidade matemática um pouco mais avançada, mas trabalha com os desbobramentos das teorias mais aceitas atualmente.

Contudo, temos um pequeno impecílio: os livros didáticos. Ao mesmo tempo em que os PCNs afirmam que os alunos de Ensino Médio devem

“Adquirir uma compreensão cósmica do Universo, das teorias relativas ao seu surgimento e sua evolução, assim como do surgimento da vida, de forma a poder situar a Terra, a vida e o ser humano em suas dimensões espaciais e temporais no Universo.”
(Item II.5 – Relações entre conhecimentos disciplinares, interdisciplinares e inter-áreas, p. 13)

não se encontra nenhum material didático que aborde o assunto e, quando o faz, faz de forma superficial e nas últimas séries (quando trata-se de material seriado).

Assim, desenvolver um material de cosmologia que supra a lacuna que o ensino de Física criou com as demais ciências e implementar esse conteúdo são os primeiros passos para que a ciência passe a ser algo mais conciso e sustentável dentro dos três anos do Ensino Médio.

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Responses

  1. Estamos juntos nessa! Concordo em gênero, número e grau! rs
    Se precisar de ajuda e sugestões na produção do material estou ai…
    Abraço e parabéns pela reflexão!

  2. Muito bom… é admirável a sua vontade de mudar o mundo. Apesar deste assunto ser muito complexo e envolver questões políticas, se ninguém começar nada sairá do lugar.

    Realize suas ideias, escreva seu material… se precisar, te ajudarei com a questão da publicação.

    Beijos

  3. Oi Jú, lendo seu texto me lembrei de meu Professor de Ciências da 6ª série. Lembro que ele começou aquele ano com o ensino dos princípios básicos de Física e ao longo do ano ele conectou, de forma inteligente e criativa, a base da Química e da Biologia. Ele sempre fazia nas aulas algum experimento (simples) no qual sempre havia uma conexão físico-química-biológica. Lembro que estas aulas eram bem interessantes. Detalhe, fiz o ensino fundamental em escola pública da prefeitura de São Paulo. Depois que me formei na 8ª série, fui para escola particular cursar o ensino médio. E, também me lembro que havia uma conexão entre as aulas de Física, Química e Biologia. Por exemplo, me lembro de uma aula prática de Física, na qual o Professor preparou um modelo para explicar o movimento da musculatura de um braço humano. O Professor de Biologia também participou desta aula para inserir a parte biológica e química da história. Foi muito legal, me lembro bem. É uma pena que a grade currícular do ensino no Brasil tenha se deteriorado tanto. Mas também acredito que, apesar das dificuldades, é preciso mudar esta situação. Pode contar comigo pra tentar buscar soluções e discutir idéias! Parabéns pelo texto. Beijão. Jana 🙂

  4. Sou aluno de Licenciatura de Biologia, e concordo o que eu vivi nas salas de aulas foram um total desencontro dessas três matérias, por isso concordo com você. E pretendo assim que me forma ter uma postura diferente apesar controle ESTATAL. Quero ensinar as disciplinas com as sua congruências que as envolve. Você está de parabéns pela sua reflexão.


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