Publicado por: otaodabiologia | 13/06/2010

O fogo, a pólvora e o genoma artificial

Dentre os inúmero fatos que podem marcar o ano de 2010, o desenvolvimento do primeiro ser vivo com um genoma completamente artificial deve ser visto como grande favorito, pelo menos até o momento. Não se trata, ainda, da criação da vida pelo ser humano, mas de um grande passo para a compreensão do que é a vida, sem definição até hoje.

Obviamente, tal feito despertou a ira de diversas pessoas e grupos e, como não podia deixar de ser, já chovem discussões ditas “éticas” na internet, jornais e outros meios de comunicação sobre as possibilidades de uso dessa nova descoberta. Em uma sociedade dita democrática, é ótimo que as pessoas possam discutir, questionar e se fazerem entender. Contudo, acabamos muitas vezes caindo em discussões fúteis e até mesmo inúteis sobre determinado ponto de um assunto. E é exatamente o que tenho visto nos primeiro dias após o anúncio de tal revolução.

Em primeiro lugar, seria bom esclarecer o que exatamente foi feito por Craig Venter e sua equipe. Não se trata, em momento nenhum, da criação da vida pelas mãos humanas. Trata-se, na verdade, da transformação de uma vida em outra. Tal feito foi conseguido porque Venter e sua equipe conseguiram desenvolver um método que evita que o novo genoma inserido seja destruído pela célula hospedeira, passando a vê-lo como seu. Além disso, não se trata de uma sequência de DNA inexistente na natureza. Na verdade, o que se produziu foi um cromossomo artificial com base em um genoma sequenciado e armazenado em um banco de dados de computador, ou seja, esse genoma primeiro foi “desmontado” na natureza, armazenado em um banco de dados e, depois, remontado artificialmente. Talvez seja a falta de compreensão dessa última informação que vem levando diversos grupos a questionar a segurança do experimento e algumas implicações éticas.

Não assumindo o ponto de vista religioso do assunto, a principal discussão é como essa nova descoberta poderá ser empregada pela humanidade. Surge então a afirmação, feita pelo próprio Craig Venter, que ela poderá ser empregada tanto para o bem como para o mal. Ora, o desenvolvimento científico é inevitável, mas cabe a nós sabermos usá-lo de maneira correta. O problema é que o ser humano é eticamente corruptível e basta encontrar apenas um bom cientista dessa estirpe para termos um problema real.

O que as pessoas esquecem, ou fazem questão de ignorar, é que toda descoberta pode ser usada tanto para o bem como para o mal. Toda. A primeira delas, o fogo, é a de mais fácil compreensão. Ao mesmo tempo que possibilitou a humanidade cozer alimentos, aquecer as casas, entre muitas outras coisas realmente úteis, também possibilitou que jovens da elite de Brasília (um deles filho de juiz) assassinassem o índio Pataxó Galdino de Jesus, queimado vivo em abril de 1997. Se ampliarmos nossas avaliações, vamos passar pela criação de objetos cortantes, que deram origem ao bisturi, que pode ser usado para extirpar um tumor e salvar uma vida, mas também pode ser usado para esfaquear uma pessoa. Com a roda temos o mesmo quadro. Carros matam pessoas, motos matam pessoas, e podem ser usados intencionalmente para isso. Remédios? Segue-se o mesmo raciocínio. Pólvora? Desnecessário qualquer tipo de comentário.

Ainda, surgem afirmações de que esse ser vivo com genoma sintético poderia ser usado para criar armas biológicas. Sim, é possível, mas será provável? Não precisamos criar uma nova bactéria a partir do zero para desenvolver uma arma biológica. Armas biológicas já existem desde a antiguidade medieval, quando corpos com doenças infectocontagiosas em decomposição eram usados para contaminar o abastecimento de água das cidades em guerra. Já no século passado, temos o uso de armas biológicas pelos japoneses contra os chineses documentados oficialmente. Recentemente, a Inglaterra assumiu ter desenvolvido armas biológicas durante a Segunda Guerra Mundial para atacar os alemães. Sua pesquisa de desenvolvimento foi tão ampla que chegou a produzir não somente Antrax para contaminar o gado alemão, mas também outras doenças como cólera e disenteria.

Não obstante, as técnicas de engenharia genética disponíveis hoje são suficientes para criar uma “super” arma biológica, e muito provavelmente essas armas já existem. O que temos em mãos agora é uma nova técnica de manipulação genética que abrirá uma infinidade de portas para o desenvolvimento de novas vacinas, drogas e inúmeras outras coisas. Tanto é assim que Venter já está trabalhando com a Exxon Mobil para desenvolver algas que produzam biocombustível a partir do CO2 atmosférico em escala comercial de forma rentável. Ficamos aguardando quais serão as primeiras conquistas produzidas por essa técnica.

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