Publicado por: otaodabiologia | 14/01/2009

Quando começa a vida?

Se você é uma pessoa atenta às discussões que ocorrem em seu país, certamente sabe qual motivo me conduz a escrever sobre tal assunto. Entretanto, além da recente discussão no cenário político sobre o uso de embriões humanos em pesquisas com células-tronco, outros fatores me entusiasmaram a escrever sobre o “começo da vida”, que nada mais são do que os dois últimos artigos que publiquei aqui no blog, os quais são intitulados “Matemática do embrião” e “Matemática do embrião II“.

As incríveis conclusões matemáticas demonstradas nos artigos nos fazem refletir sobre a complexidade que é o desenvolvimento embrionário. Ao mesmo tempo, começamos a nos indagar o que vem a ser vida, quando ela começa, quando ela termina. Diante dos fatos, podem existir diversas opiniões sobre a vida e, principalmente sobre quando e como se inicia. Alguns podem afirmar que diante tal complexidade de eventos, a vida deve ser produto de um ser superior, o qual é chamado genericamente de Deus, ou seja, que existe uma força superior que coordena todos esses eventos. Por outro lado, alguns, que eu acredito que sejam poucos, podem afirmar que a vida nada mais é do que uma mera probabilidade matemática, sendo justificada pela alta frequencia de abortos espontâneos (naturais), sendo essas pessoas seriam facilmente adjetivadas de niilistas. Não quero entrar no mérito das crenças pessoais e, por isso, tentarei discutir o assunto cientificamente, contrapondo as opiniões já apresentadas na TV, revistas, jornais e outros meios de comunicação de massa.

Recentemente, o Superior Tribunal Federal (STF) aprovou o uso de embriões humanos em pesquisas sobre células-tronco, no caso, células-tronco embrionárias. De forma resumida, tais pesquisas necessitariam inviabilizar embriões humanos para obter células-tronco embrionárias, as quais tem capacidade de se diferenciar em qualquer um dos mais de 200 tipos de células humanas. Tais pesquisas são essenciais para o desenvolvimento de novos tratamentos e, possivelmente, para a cura para diversas doenças, como Diabetes, Mal de Parkinson, Mal de Alzheimer, Distrofias musculares, entre outras.

Paciente portador de distrofia muscular. A doença tem origem genética e os afetados geralmente morrem antes dos 20 anos de idade.

Paciente portador de distrofia muscular. A doença tem origem genética e os afetados geralmente morrem antes dos 20 anos de idade.

A discussão, tanto no Congresso Nacional quanto no STF, foi um tanto quanto “acalorada”, conflitando as mais diversas formas de pensamento. Não obstante, as discussões promovidas pelos meios de comunicação foram essenciais para o entendimento, tanto por parte da população como pelos ministros que participaram da votação.

O mais emblemático questionamento que surgiu então foi a respeito de quando se inicia a vida, e é exatamente a esse ponto que quero me ater. Lembro-me de quando assisti o programa Roda Viva (TV Cultura – 04/12/2006), em que a geneticista da USP, Mayana Zatz, a qual particularmente considero ser a maior cientista na área médica no Brasil atualmente, tece seus argumentos a favor da utilização de células-tronco embrionárias humanas em pesquisas científicas.

Desde o início das discussões sobre o uso de células-tronco embrionárias venho procurando saber a opinião das pessoas sobre tal assunto, mesmo que de forma indireta. Ouvi as mais diferentes opiniões e suas razões, mas principalmente me preocupei em ouvir os motivos pelos quais as pessoas são contra a utilização de tais células. Com base no que tenho estudado nos últimos anos, tentarei esclarecer alguns pontos fundamentais sobre o “início da vida”, ponto-chave da discussão.

<<

A vida sem um início

O maior engano cometido por aqueles que defendiam a proibição do uso de embriões humanos em pesquisas com células-tronco embrionárias foi afirmar que se estaria matando um ser vivo. Segundo tal ponto de vista, que tem origem em dogmas religiosos, a vida se origina no momento da fecundação. Entretanto, precisamos deixar claro alguns fatos biológicos, e faremos isso utilizando o raciocínio lógico.

Um dos principais axiomas da biologia é o fato de que a célula é a menor unidade que contém, ou que apresenta, vida. Esse é um ponto indiscutível tanto no meio acadêmico quanto no religioso. Assim, considerando-se tal fato como verdadeiro, temos também que considerar os gametas (ovócito secundário e espermatozóide) como sendo seres vivos, uma vez que ambos são células, embora possuam apenas metade da quantidade de DNA (células haplóides) em comparação com as outras células do corpo. A fecundação consiste, portanto, da fusão de dois seres vivos para a formação de um único, ou seja, a vida já pré-existia antes da fecundação e, assim, torna-se um erro afirmar que a vida surge na fecundação.

Coleta de células-tronco embrionárias - Advanced Cell Technology

Coleta de células-tronco embrionárias - Advanced Cell Technology

Se a vida pré-existe antes da fecundação, o que podemos dizer a respeito do que se formou a partir deste evento? A questão é separar o conceito de “ser vivo” do conceito de “indivíduo”. Na verdade, após a fecundação, temos a formação de um novo indivíduo, o qual é dotado de um genoma único, e não um novo ser vivo. Acontece que esse indivíduo está vivo, mas a sua vida nada mais é do que um continuum de duas vidas pré-existentes.

Como veremos mais abaixo, a diferença entre as células de um embrião e as células de um indivíduo adulto são quais genes encontram-se ativados e quais encontram-se inativados. Não existem genes diferentes no embrião ou em uma célula adulta, os genomas são idênticos. Mesmo células da pele, as quais são altamente diferenciadas, podem voltar a se tornarem indiferenciadas como as células embrionárias, desde que cultivadas de forma correta. Assim, de forma geral, todas as células humanas tem o potencial a de se tornar um embrião, uma vez que o genoma é o mesmo, bastanto para isso reprogramá-las.

Diante disso, o problema deixa de ser biológico para se tornar jurídico. Cabe aos magistrados, representantes da população, julgar quem tem mais direito a vida, um embrião ou um ser já formado, o qual muitas vezes possui laços familiares e que, descartada sua possibilidade de sobrevivência pela não aceitação do uso de células-tronco embrionárias, não terá mais direito a vida. A esse respeito, dedicarei a seção “Ética e Moral” onde farei maiores considerações sobre o assunto.

>>

Mais lenha na fogueira

Se você acredita que o argumento acima é suficiente para encerrar a discussão em termos biológicos, deixe-me apresentar duas recentes conquistas dos cientistas. Duas equipes independentes de cientistas, uma no Japão e outra em Winsconsin (EUA), conseguiram reprogramar células da pele para que se tornassem células-tronco embrionárias. A reprogramação consistiu na inserção de 4 genes que reprogramaram o DNA para se transformar em qualquer um dos mais de 200 tipos celulares (veja vídeo abaixo). Tal descoberta não só abre caminho para facilitar as pesquisas com células-tronco embrionárias como também nos faz remeter a antiga discussão sobre o “início da vida”.

Deixado de lado o obscurantismo religioso, a descoberta acima citada corrobora ainda mais o argumento anterior do continuum da vida. Embora essas células reprogramadas não tenham sido implantadas em um útero para verificar a viabilidade de se gerar um bebê, ou seja, de se gerar uma gestação comum, fica evidente que as células-tronco embrionárias diferem das demais apenas por apresentar um repertório de genes ativados e desativados diferente de qualquer outra célula adulta.

Outra grande descoberta que estremeceu a comunidade científica foi a de que óvulos de vaca que receberam núcleos humanos passaram a se comportar como embriões humanos, gerando células-tronco embrionárias. O que me deixou perplexo foi a reação da igreja diante de tal descoberta que, segundo um de seus representantes, afirmou contundentemente: “a ciência foi longe demais”.

O que me espanta nesse tipo de posição é o dogmatismo irracional e cego. Ora, se o problema em se utilizar células-tronco embrionárias humanas é a destruição de um embrião humano, ao se utilizar tal técnica evitaríamos esse problema. Nesse sentido, a igreja deveria agradecer ao grupo que desenvolveu tal técnica.

Mas, como tudo que já está ruim pode ficar ainda pior, a igreja católica conseguiu se superar diante de suas posições. Após se declarar contra esse tipo de experimento, bispos da Inglaterra e do País de Gales apelaram ao parlamento britânico para que mulheres recebessem os embriões híbridos, visto que são aproximadamente 99% humanos (o outro 1% do DNA é de origem mitocondrial e, portanto, tem origem bovina) e, assim, deveria ser dado a eles o direito de se desenvolver e nascer. Nas palavras dos bispos “Não deveria ser um crime transferi-las, ou outros embriões humanos, para o corpo da mulher que cedeu o óvulo, nos casos em que um óvulo humano tenha sido usado para criá-las. Essa mulher é a mãe genética, ou mãe parcial, do embrião”.

O que beira a ignorância são os seguintes fatos:

  1. Para gerar a ovelha Dolly, centenas de embriões foram utilizados, sendo que apenas 1 se tornou viável, o que nos mostra que mesmo na clonagem que utiliza óvulos da mesma espécie do doador do núcleo, a possibilidade de se criar embriões anormais é muito elevada. Imagine então em um embrião híbrido;
  2. Não há nenhuma mulher doadora de óvulo, e sim uma vaca doadora, o que me parece não ter sido compreendido. Se alguém teria o direito, como proposto pelos bispos, esse alguém seria a vaca;
  3. Se tal grupo tanto deseja que esses embriões híbridos, produtos de clonagem, possam se desenvolver em um útero materno, logo eles são favoráveis à clonagem reprodutiva, algo que nem mesmo a ciência é a favor.

<<

Dois pesos, duas medidas

Diante do desconhecido, as pessoas possuem uma tendência natural em assumir uma posição conservadora. Um direito conquistado pelas mulheres com muito esforço sugere algo, no mínimo, dúbio. O direito a escolha do momento de engravidar, ou seja, ao planejamento familiar, é amplamente apoiado no uso de contraceptivos, mais conhecidos como anti-concepcionais (ou pílula), embora existam outros meios, como o uso de preservativo, por exemplo. Tal dubiedade não reside no direito da mulher em planejar sua gestação, algo digno de sociedades avançadas no tempo. A dubiedade está presente no tipo de droga que é aconselhada, ou escolhida, às mulheres.

Não é difícil encontrar mulheres que usam contraceptivo oral que sejam contra o uso de células-tronco embrionárias, pelo fato de estar matando um ser vivo. Talvez você esteja se perguntando qual é problema disso, o que uma coisa tem a ver com outra, não é? Pois bem, o que grande parte da população não sabe é que muitos dos contraceptivos utilizados pelas mulheres faz exatamente o que os pesquisadores deverão fazer com os embriões descartados. Tais contraceptivos não impedem a fecundação (união do espermatozóide com o óvulo), mas impedem a nidação deste na parede uterina. Como exemplos de contraceptivos que atuam dessa maneira podemos citar o Yasmin e o YAS.

Como a nidação leva de 7 a 10 dias para ocorrer, o estágio de desenvolvimento do embrião é o mesmo dos embriões a serem utilizados em pesquisas científicas, o que evidencia o desajuste racional da população.

Esses contraceptivos têm gerado muita polêmica, tanto no meio jurídico como no médico. O principal argumento é a de que esse tipo de droga não é um contraceptivo, mas sim um abortivo, uma vez que não impede a fecundação e elimina a possibilidade de desenvolvimento do embrião, causando sua morte.

Diante de tal fato, uma vez legitimado pelos órgãos competentes, havia um conflito lógico com a recusa prévia, tanto da sociedade civil como do Superior Tribunal Federal, na utilização de embriões humanos em pesquisas científicas.

>>

A demora brasileira

Enquanto nossa sociedade, subdesenvolvida economica e intelectualmente, aceitava a proibição do uso de células-tronco embrionárias em pesquisas científicas, países onde a pressão religiosa não tem tanto impacto sobre a jurisprudência não somente caminharam nas pesquisas com células-tronco como também conseguiram desenvolver alternativas ao polêmico uso de embriões humanos. Agora que aprovada pelo STF, damos início as nossas pesquisas com uma defasagem monstruosa em relação a esses países. Mesmo assim, em pouco tempo, nossos cientistas já conseguiram obter a primeira linhagem de células-tronco embrionárias, a qual foi chamada de BR-1.

Quando citei acima que procurei ouvir principalmente quais eram as razões que levavam determinadas pessoas a serem contra o uso de embriões humanos em pesquisas sobre célula-tronco, fiz isso exatamente para poder aprender mais sobre outros pontos de vista e também para testar meu poder de argumentação.

Uma das razões que mais me chamou a atenção é a de uma pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), a qual não mencionarei o nome aqui. Sua pesquisa é voltada para terapia celular utilizando células-tronco adultas. Quando da proposta de somente utilizar embriões que estavam congelados a mais de 3 anos, e que , portanto, seriam descartados, seu argumento foi o seguinte: “como a disponibilidade de embriões é pequena, quando se esgotarem esses embriões muitos pesquisadores poderão “burlar” a lei e comprar embriões de mulheres, o que acabaria por se tornar um comércio clandestino de óvulos”.

Vou tentar esclarecer uma coisa: se partimos de hoje, todos os embriões que não forem utilizados em inseminação artificial estarão disponíveis para pesquisa dentro de 3 anos. Se esgotássemos todos os embriões com 3 anos de congelamento em apenas 1 ano de pesquisas, no ano seguinte haverá mais uma determinada quantidade de embriões para uso, os quais não foram utilizado no primeiro lote por terem apenas 2 anos de congelamento, e assim por em diante.

Além dos avanços citados acima que foram conquistados pelos países que permitem pesquisas com embriões humanos, uma outra equipe de cientistas conquistou mais uma vitória para a ciência. Um grupo de cientistas da Advanced Cell Technology conseguiu obter células-tronco embrionárias sem destruir o embrião. A técnica consiste na extração de uma única célula embrionária de forma a não comprometer o desenvolvimento do embrião. Após isolada, a célula-tronco embrionária é cultivada em meio contendo laminina, a qual mantém a pluripotência da célula. Caso deseje ler o artigo original, clique aqui para fazer o download.

Mesmo parecendo resolver a problemática envolvida na destruição dos embriões, tal técnica foi recebida negativamente pela igreja. De acordo com o pastor Tadeusz Pacholczyk, diretor da educação do National Catholic Bioethics Center e um dos principais opositores ao estudo com células-tronco embrionárias, “apesar de moralmente plausível” (…) “ainda não traz uma solução ética” (…) “Qualquer procedimento que ponha em risco a saúde e a vida de um embrião humano para propósitos que não beneficiem diretamente ao embrião é moralmente inaceitável”.

>>

Na mídia aberta

A internet é o meio que eu considero o mais democrático de todos, embora nem todos ainda tenham acesso à ela. Aqui todos podem expressar suas opiniões sem maiores problemas. Os problemas somente começam quando grupos pró ou contra algo começam a fazer afirmações infundadas, como pode ser visto no vídeo abaixo. Quero me ater ao começo do vídeo, em que afirma-se, categoricamente, que:

  • … essas 3 mil vidas daria, no máximo, para dois anos de pesquisas,
  • … é que os próprios defensores das pesquisas com células-tronco embrionárias admitem que podem levar no mínimo 5 anos em pesquisas.

Sinceramente, nem quis continuar assistindo o vídeo, tamanha é a falta de fundamentação. Não vou explicar detalhadamente, vou deixar para você leitor chegar as suas próprias conclusões. O trecho que transcrevo abaixo é parte da Lei de Biossegurança, mais exatamente o artigo 5:

“Art. 5o – É permitida, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de células-tronco embrionárias obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro e não utilizados no respectivo procedimento, atendidas as seguintes condições:

I – sejam embriões inviáveis; ou

II – sejam embriões congelados há 3 (três) anos ou mais, na data da publicação desta Lei, ou que, já congelados na data da publicação desta Lei, depois de completarem 3 (três) anos, contados a partir da data de congelamento.

§ 1o Em qualquer caso, é necessário o consentimento dos genitores.

§ 2o Instituições de pesquisa e serviços de saúde que realizem pesquisa ou terapia com células-tronco embrionárias humanas deverão submeter seus projetos à apreciação e aprovação dos respectivos comitês de ética em pesquisa.

§ 3o É vedada a comercialização do material biológico a que se refere este artigo e sua prática implica o crime tipificado no art. 15 da Lei no 9.434, de 4 de fevereiro de 1997.”

O grande problema me parece a falta de informação. Entretanto, algumas vezes pode parecer conveniente ao autor tal “falta de informação”. É dessa forma que mentiras fluem entre as pessoas sem maiores problemas. A incompetência e a falta de ética ainda permeiam a vida humana e se disseminam pelos meios de comunicação.

Outra falta de informação leva a produção de vídeos como o abaixo, de uma pessoa que se chama Leon e que, segundo ele, reside na Alemanha. Desconheço a formação de Leon, nem em seu próprio blog encontrei algo que me permitisse compreender suas afirmações ou, pelo menos, a origem delas.

No vídeo, Leon diz-se contra o uso de células-tronco embrionárias pelo fato delas não possuírem aplicação prática, diferentemente das células-tronco adultas, e que tais pesquisas servem apenas para estudo (tal absurdo tem começo no segundo minuto do vídeo). Não sei de onde Leon tirou essa afirmação, mas posso garantir a ele que ela está completamente incorreta. O estudo das células-tronco embrionárias tem um potencial de aplicação muito maior do que as células-tronco adultas. O primeiro passo é compreender os mecanismos que fazem uma célula-tronco embrionária se transformar numa célula tipo A, B ou C, para, a seguir, conseguir controlar a sua proliferação e evitar o desenvolvimento de um câncer. Vencidas essas duas etapas, podemos iniciar o que chamamos de “clonagem terapêutica”, em que um óvulo humano anucleado (sem núcleo) recebe o núcleo de uma célula somática (diplóide – 46 cromossomos) e passa a se desenvolver como se fosse um embrião. Consequentemente, todas as células-tronco embrionárias possuiriam o mesmo genoma que o doador do núcleo, o qual é o alvo da terapia celular, não havendo, assim, rejeição celular, como proposto por Leon.

Entretanto, doenças de origem genética não poderão ser curadas ou tratadas pela simples clonagem terapêutica, uma vez que todas as células do indíviduo afetado possuem a mesma mutação. Assim, não interessa se o tratamento utilizaria células-tronco adultas ou embrionárias, ambas obtidas do próprio paciente, pois ao se tratar o paciente com tais células, estaríamos re-inserindo os mesmo genes não funcionais. Dessa maneira, temos as seguintes alternativas:

  1. trabalhar com terapia gênica nas células-tronco antes de serem transplantadas para o receptor. Nessa técnica, o gene mutante é substituído por um gene funcional e, com a proliferação celular, todas as células possuiriam o gene inserido. Essa é uma técnica que apresenta uma funcionalidade real, mas que ainda precisa ser mais aperfeiçoada;
  2. transplantar, diretamente, células-tronco embrionárias de embriões descartados ou doados. Estudos recentes têm demonstcrado que células-tronco humanas quando injetadas em camundogos com distrofia muscular não são rejeitadas. Quem conseguiu tal feito foi a equipe da Dra. Mayna Zatz, e pode ser lido com mais detalhes em seu blog na revista Veja. Tal conquista sugere que não necessariamente haverá rejeição ao se transplantar células-tronco embrionárias em diferentes pacientes. Por conta de descobertas como essa é que se torna tão vital o estudo mais aprofundado das células-tronco embrionárias, pois abriria caminho para inúmeras formas de tratamento.

Imagine só o problema que esse tipo de coisa pode gerar se uma criança assiste um vídeo como esse, como parte de uma pesquisa proposta pelo professor de biologia ou de ciências. Pior, se o professor, o qual é mal formado, toma esse vídeo como verdadeiro, imaginando que se trata de um expert no assunto e passa a disseminar tal ponto de vista como verdadeiro. Como visto, nosso amigo Leon não possui a mínima capacidade de argumentação fundamentada em fatos reais. Só não sugiro que Leon retire seu vídeo da internet para não tornar inútil tudo que escrevi acima. Mas mesmo assim, fico receoso quanto ao que a população leiga pode achar do seu vídeo.

<<

Ética e Moral

É muito comum ouvir as pessoas citando a palavra ética em conversas aletórias, geralmente sem saber qual seu real significado. Existe diferença entre ética e moral? Se sim, qual é a definição de cada uma delas?

Tal assunto deveria ser abordado nas aulas de filosofia, que somente agora entrou como parte de curriculum escolar. Para tentar explicar de forma clara, tentarei usar um exemplo simples. Comecemos pelo questionamento: Andar nú na rua é imoral ou antiético?

Qualquer um responderia de pronto que andar nú na rua é imoral. Mas será que andar nú na rua também seria, necessariamente, antiético? Vamos a seguinte situação: um bebê é feito refém de assaltantes de banco malucos. Como exigência para libetação do bebê, eles solicitam que o comandante da polícia vá buscar o refém nú. Nesse momento, o ato de andar nú em via pública deixa de ser imoral.

Mas, afinal, qual é a diferença entre moral e ética? Tal confusão existe há muitos séculos e a própria etimologia da palavra também causa confusão. A palavra ética é derivada do grego ‘Ethos’, que significa “modo de ser”, enquanto a palavra ‘Moral’ tem sua origem no termo latino ‘Mores’, que por sua vez significa “costumes”. Dessa forma, ao esclarecer os dois temas, temos que ‘Moral’ é um conjunto de normas que regulam o comportamento do homem em sociedade, e estas normas são adquiridas pela educação, pela tradição e pelo cotidiano. Durkheim explicava Moral como a “ciência dos costumes”, sendo algo anterior a própria sociedade. A Moral tem caráter obrigatório.

Em contrapartida, de acordo com Motta (1984), Ética é definida  como um “conjunto de valores que orientam o comportamento do homem em relação aos outros homens na sociedade em que vive, garantindo, outrossim, o bem-estar social”, ou seja, Ética é a forma que o homem deve se comportar no seu meio social.

Portanto, seria imoral e antiético utilizar embriões humanos para se obter células-tronco? Existe um problema fundamental que é o desconhecimento, por parte da população leiga no assunto, do que vem a ser esse embrião a ser utilizado. No imaginário popular, esse embrião seria parecido com um bebê em desenvolvimento. Precisamos deixar claro que embrião é um aglomerado de células embrionárias, o qual vai se desenvolver em um feto após a nidação no útero. Tanto é assim, que somente após 14 dias da fecundação inicia-se os primeiros vestígios de um sistema nervoso, e as pesquisas utilizam embriões com aproximadamente 5 dias. Para não estender demasiadamente o assunto e tornar a leitura ainda mais cansativa, sugiro àqueles que desconheçam as bases da embriologia que leiam o manual Merck sobre a gravidez.

Quanto a ser ético ou não o uso de células-tronco embrionárias em pesquisas e, futuramente, em tratamento de doeças, fica evidente pela própria definição de ‘Ética’ que seu uso deve ser reconhecido e permitido pela sociedade laica. Me restrinjo a ‘sociedade laica’ devido ao fato de que o uso de tais células fere os princípios divinos que regem as diferentes religiões. Se realizarmos a análise de uma situação onde uma pessoa, que para não morrer, tem como alternativa o uso de células-tronco embrionárias, o que seria mais ético: deixar a pessoa, consciente e complexa em sua formação biológica, morrer ou inutilizar um embrião para salvar sua vida?

Ao se questionar sobre a proposição acima, questiona-se diretamente o direito à vida do embrião. Ao meu ver, e isso é um conceito pessoal, um indivíduo já formado (bebês, crianças, adultos e idosos) possui muito mais direito a vida do que um mero aglomerado de células indiferenciadas, as quais nem possuem um sistema nervoso, circulatório ou de qualquer outro tipo. Para chegar a tal conclusão, comparei a complexidade de funcionamento de um indivíduo já formado, com o funcionamento de um embrião. Ora, um indivíduo adulto possui cerca de 30 trilhões de células, as quais se comunicam entre si, respondem a estímulos internos e externos e que são, em sua grande maioria, capazes de duplicação (excetuando-se as fibras musculares e os neurônios). Além disso, depois de um dado período de desenvolvimento embrionário (mais precisamente, 14 dias após a fecundação), o feto já possui um sistema nervoso que possibilita a consciência plena e tal permanece até sua morte. Por outro lado, um embrião, na fase de blastocisto (fase em que as células-tronco embrionárias são isoladas), é um aglomerado com umas poucas centenas de células, cuja comunicação e complexidade não permite serem comparadas a um indivíduo já formado. Não possuem sistema nervoso de nenhum tipo e o menor erro em seu programa de desenvolvimento causa um abortamento espontâneo (para saber mais, leia Matemática do Embrião II).

Diante de tais fatos, a decisão do STF foi, em minha opinião, algo digno de um país desenvolvido,  embora tenha demorado muito a avaliar tal proposta. Cabe agora aos conselhos de ética em pesquisas acompanhar de perto o andamento das pesquisas para evitar ao máximo qualquer problema de ética nos experimentos. Acredito que, nesse momento, mesmo aqueles que opunham-se ao estudo das células-tronco embrionárias devem estar torcendo para o avanço das pesquisas, que delas surjam novos tratamentos e, acima de tudo, que descubra-se a cura de doenças cuja única esperança para o alívio da dor e do sofrimento era a morte.

About these ads

Responses

  1. Sou fovoravel ao uso de celulas tronco embrionaria em embrioes com ate 5 dia de fertilização poque acho que elas representam e esperança de cura de muitas doenças degerativas no mundo todo. A lei de Biossegurança no Brasi deveria se revista por nossos legiladores, gontaria de receber E-Mail com opinioes.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: