Publicado por: otaodabiologia | 14/11/2008

A vingança de Oswaldo Cruz

Século XX. Ano: 1904. Mês: novembro.

Muito tempo se passou, muita coisa mudou. É inquestionável a diferença entre o Rio de Janeiro de 2008 e o de 1904. Mas uma herança mórbida persiste ainda hoje: a falta de educação da população.

Em 1904, quatro séculos após o descobrimento, o Rio de Janeiro era a capital do Brasil. Longe de ser uma cidade exemplar, possuía habitações em estado precário, o esgoto fluía a céu aberto, o lixo ficava jogado em qualquer canto da rua. Era hábito comum da população, mesmo entre os mais nobres, lançar pela janela suas fezes e urina. Num lugar como esse, doenças como febre amarela, tuberculose, varíola e peste bubônica disseminavam-se com facilidade e, obviamente, a população de baixa renda era a que mais sofria.

A situação era tão precária que a cidade ficara conhecida como “túmulo dos estrangeiros”. De fato, em 1895, o contratorpedeiro italiano Lombardia atracou no porto do Rio e 234 dos seus 337 tripulantes faleceram, vítimas da febre amarela. Durante o verão, diplomatas estrangeiros refugiavam-se em Petrópolis, a fim de fugir das epidemias.

Diante desses fatos, o então presidente Rodrigues Alves decidiu modernizar a cidade do Rio de Janeiro. Para realizar tal tarefa, Rodrigues Alves nomeia o engenheiro Pereira Passos como prefeito e o médico sanitarista Osvaldo Cruz como chefe da Diretoria de Saúde Pública, ambos com poderes quase que ilimitados. Em sua posse, Osvaldo Cruz disse: “Dêem-me liberdade de ação e eu exterminarei a febre amarela dentro de três anos”. De fato, Osvaldo Cruz cumpriu o prometido, mas a tarefa, que parecia trivial inicialmente, só foi concluída com o derramamente de muito sangue.

Com o início das obras que iriam remodelar as ruas do Rio de Janeiro, milhares de pessoas perderam seus lares para dar espaço às novas avenidas, bem mais largas que as anteriores. Somado a isso, o governo federal decretou a Lei da Vacinação Obrigatória, a qual tinha por finalidade eliminar a varíola, doença que há muito assombrava os quatro cantos do planeta. Entretanto, a população não foi bem informada sobre a vacinação e passou a alegar que a vacina trazia graves riscos à saúde, uma vez que o próprio vírus seria inoculado. Outro ponto importante a ser lembrado foi o modo como Osvaldo Cruz conduziu o combate ao mosquito causador da febre amarela. As equipes de “Caça Mosquitos”, como foram denominados, invadiam as casas em busca de focos de mosquitos. Isso representou uma invasão de privacidade para a população.

Mediante todos esses fatos, a oposição ao governo do Presidente Rodrigues Alves vislumbrou uma grande chance de dar um golpe de estado para depô-lo, na tentativa de restaurar o antigo sistema de governo. Entretanto, nem mesmo os opositores conseguiram canalizar a revolta popular, que acabou por tomar um rumo próprio. Tal golpe seria desfechado no dia 15 de novembro, durante o desfile militar.

No dia 10 de novembro eclodiu a revolta popular. A população, indignada com a forma como estavam sendo conduzidas as medidas sanitárias, especialmente a vacianção obrigatória, e com a reestruturação da cidade, foi às ruas e o caos tomou conta da cidade. Essa revolta popular ficou conhecida como Revolta da Vacina. Diante de toda a confusão gerada, o desfile militar foi cancelado, impossibilitando o golpe.

A Gazeta de Notícias, noticiou no dia 14 de novembro a revolta da seguinte forma:

Tiros, gritaria, engarrafamento de trânsito, comércio fechado, transporte público assaltado e queimado, lampiões quebrados à pedradas, destruição de fachadas dos edifícios públicos e privados, árvores derrubadas: o povo do Rio de Janeiro se revolta contra o projeto de vacinação obrigatório proposto pelo sanitarista Oswaldo Cruz

Bonde tombado pelo povo durante as manifestações populares no Rio de Janeiro
Bonde tombado pelo povo durante as manifestações populares no Rio de Janeiro

A revolta foi sufocada após o governo decretar estado de sítio, em 16 de novembro. O saldo final da revolta foi de 30 mortos (esse valor varia de acordo com a fonte: 23, 30 e 50), 110 feridos e milhares de presos. Apesar disso, a vacinação foi concluída e o número de mortes causadas por varíola caiu de 3500 em 1904 para 9 em 1906.

Mas afinal, qual é o intuito deste artigo? Relembrar um pouquinho da história brasileira? De certa maneira sim, mas almejo algo um pouco mais adiante, algo que nos faça refletir e perceber que algumas coisas não mudaram tanto de 1904 para cá.

O final de 2007 e início de 2008 foi marcado por uma alta nos índices de contaminação por febre amarela. Embora não tenha sido classificada como um surto epidêmico, o número de casos ficou bem acima da média anual, que nos últimos 12 anos oscilou entre 12 e 40 casos por ano. De acordo com o virologista e pesquisador em febre amarela e dengue do Instituto Oswaldo Cruz, Hermann Schatzmayr, somente pode-se classificar como surto quando o número de casos dobra quando comparado aos outros anos. Entretanto, Schatzmayr concorda que o surto é uma epidemia localizada.

Tal surto levou a população em massa aos postos de saúde para receber a vacina contra a febre amarela. Contrariamente ao ocorrido em 1904, a população já estava conscientizada da importância da vacinação. O que não era esperado era o fato de algumas pessoas tomarem a vacina mais de uma vez. Cerca de 31 pessoas foram internadas com suspeita de superdosagem, duas delas em estado grave. Se Osvaldo Cruz estivesse vivo, com certeza ele iria se remoer de dar risadas com tal ocorrido. Tudo ainda funciona como antes, só de que forma invertida.

Mas afinal, quais são as reais razões para esse tipo de atitude? Falta de educação? Culpa de uma mídia incompetente, que não sabe veicular as notícias de forma adequada? Creio que o ocorrido seja uma composição dos dois ingredientes acima citados. A educação, ou melhor, a falta de educação de qualidade, que atravanca o raciocínio lógico e não estimula a busca de informações, é uma das grandes responsáveis pelas atrocidades que vemos hoje no Brasil. A ignorância se perpetua pela falta de qualificação no corpo docente, o qual, como numa bola de neve, foi formado por um corpo discente que não tinha um corpo docente anterior de qualidade, no mais perfeito modelo de efeito dominó, neste caso, classificado como de infinita duração, uma vez que até hoje não se vê uma tentativa real de mudança no sistema de ensino brasileiro. Pode ser que daqui a algumas décadas isso mude. Caso isso ocorra, e eu torço para isso, voltarei a este artigo e classificarei o efeito como de longa duração!

Ahhhh, Osvaldo Cruz… O que você diria se estivesse vivo hoje? Sentiria-se vingado?

Eu me sentiria.

Antonio Carlos Martinho Junior

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Responses

  1. Vingança é um prato que se come frio…
    Com frieza, queira-se dizer…
    Frieza de atitude, não significa falta de carater…
    Osvaldo Cruz sabia disso… e sabia bem… estagiou no Instituto Pasteur com Pierre Paul Émile Roux (diretor da École pratique des hautes études – centro de estudo francês de biologia aplicada, um centro de produção tecnológica, filosofia humana e religiosa criada em 1868!!!!!)
    Trabalho, paciência, perseverança e racionalismo…
    Tudo dentro de suas proporções, claro…
    Se puderes ser um pouco desajustado socialmente, sua liberdade atingirá maior abrangência e peculiaridades próprias…
    Ser brilhante é ser original e acima de tudo ter boa vontade…
    Oswaldo Cruz ainda nos deixou o belissímo Instituto Oswaldo Cruz, uma pedaço do Palácio de Alhambra (Granada/Espanha) no Brasil.
    Putz… um dia chego lá… se Deus quiser…

    Abraços, Júnior…

    Alisson


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